Micélio

Desconhecido

Hoje me aconteceu uma coisa terrível. Saí com a Goiaba e um carro buzinou pra me cumprimentar. Ignorei, para fugir. Mas o carro deu a volta no quarteirão e, quando eu dobrava a esquina, gritou de um jeito esganiçado, meio estridente, mas absolutamente íntimo: Ô Leo. Eu me virei. Não reconheci o carro - estava assustado, meio pego em flagrante, a sensação de se descobrir observado, uma exposição intensa, perigosa. Me aproximei, porque aquela intimidade exigia que eu me aproximasse, sorrisse, me encolhesse com gentilezas. Oi. Não reconheci a pessoa, mas a intimidade e o sorriso mostraram que, em alguma época, tínhamos sido claramente próximos e amorosos um com o outro, segredos podem ter sido confessados, talvez nossos corpos se conhecessem. Mas eu não o reconheci. Houve um breve silêncio. Tudo bem? Tudo, e você? E ele acelerou e foi embora, sem que eu tivesse tempo de entender. Passei a tarde com aquele rosto na cabeça, como se eu tivesse uma peça de um quebra-cabeças que tenho que medir e provar, mas nenhuma das lacunas do desenho parece a certa. Uma intimidade foi perdida. Ou já estava perdida pra mim sem que eu soubesse. E agora se perdeu pra ele. A história desta perda só ele saberá.