Micélio

escrever

Minha meditação é a escrita. Como a meditação, a escrita é difícil, me escapa. Ela exige de mim vigilância e rendição. Eu tenho que estar atento a mim mesmo e ao meu redor - até mesmo, ou principalmente, às minhas reações ao redor. E não fazer estardalhaço dessa visão de mundo. Ao contrário, buscar a invisibilidade, a ausência de esforço e a vontade de interferir, participar, mudar o rumo das coisas. É como assistir a um desastre e não fugir amedrontado, não querer ajudar, não querer entender o que acontece, não relatar depois. Só ser testemunha de um desastre. O grande truque é que a observação já muda tudo. E é essa, só essa, a mudança a que se pode almejar. É só o que a gente precisa. Em tudo o que escrevo aqui há uma certeza que vai deteriorando a escrita. E essa certeza é que esses cadernos serão lidos depois que eu morrer. Por uma pessoa, que seja - acabo de me assombrar. Passou pela minha cabeça a ideia de que é possível que ninguém leia: ou não tenha paciência para chegar nesta página - vai ver que eu coloquei coisas entre as páginas, para sugerir algo, induzir um caminho. Se nem isso que eu escrevo tem valor, o que tem? Será que estou condenado a isso, a uma auto-satisfação na escrita, cheia de delírio e ilusões, distorções. Só a ideia de que você não presta é o que basta pra você não prestar. Só perguntar sobre seu próprio talento já faz com que ele desapareça. É só querer se livrar de qualquer coisa que essa coisa aparece na sua frente.