Micélio

Estou desaprendendo a falar.

Não consigo ir até o fim das conversas. Tenho que interrompê-las, inventar uma pressa. Não há como retomar um assunto, todos são tão antigos. Quando falam de seus planos para o futuro, tenho vontade de gargalhar. Me interesso por seus passados, mas isso eles escondem e logo me canso de cavoucar. Porque são enfadonhos, repetitivos, enrijecidos por ideias que nem acreditam. A XXXX, por exemplo, está congelada numa ideia dela mesma. Sente-se injustiçada, cobra do mundo uma dívida que só cresce. Choraminga, mas se imagina ordenando. Queria ser rica, porque aí poderia ser justa. Mas tem dúvidas se seria capaz de uma resignação dessas - não querer para si o melhor. Quer ser vista como eram vistos os rebeldes que idolatrava na adolescência. Mas também quer o bastidor imaginado: luxo, conforto, serviçais. Eu queria dizer para ela: relaxa, solta essa imagem. Seja do seu tamanho - mas aí eu penso que talvez– (Não tenho nem coragem de escrever)