Micélio

Estreito de Bósforo

Por um milagre, conseguimos achar e entender como fazer para atravessar da Europa para a Ásia, do lado ocidental de Istambul para o Oriente. O ferryboat não tinha glamour. O que para nós era uma aventura, uma fronteira sendo atravessada com uma promessa infantil de um mundo diferente, não passava de mais um dia nublado para quase todos os outros passageiros. Uns cansados ou tristes (não soube diferenciar), outros ainda dormindo, alguns homens falam alto e, se eu tivesse que adivinhar, diria que falam de sindicatos, pagamentos e injustiças. Mas há também um outro casal de turistas, eles também estão tentando achar no céu as linhas dos mapas. Mas agora me ocorre que talvez não fosse isso, talvez eles só estivessem felizes porque se encontraram ali, no meio de um dia comum, uns quarenta minutos para estarem juntos enquanto vão daqui pra lá. Então, por que estão tão interessados nas gaivotas? Elas também atraem o David, que é quem viaja comigo. Ou eu com ele. Nessa época isso ainda estava por ser decidido. Nós nos conhecemos numa casa noturna em Buenos Aires. Eu estava muito louco, acho que tinha engolido uma partezinha de um quadradinho de um papelzinho (não lembro bem como, mas houve uma cena de calçada, uma lambida no dedo de alguém). Isso de algum jeito misterioso me jogou nesse lugar imenso e sujo. Havia espuma na pista de dança, mas os outros dois andares não estavam tão cheios por conta da música ruim. Preferi espaço a prazer e fiquei ouvindo música eletrônica. Estava corajoso e me ofereci a um moço na pista de dança. Ele correspondeu imediatamente. Dois anos depois estávamos atravessando o estreito de Bósforo, tentando fotografar gaivotas e avistar primeiro o lado que abandonamos, depois o primeiro vislumbre do Oriente. O plano era passar o dia no lado oriental. Eu sentia uma pequena ansiedade, como se estivesse prestes a ver as regras sendo mudadas assim que cruzássemos o risco imaginário no meio do oceano. Vou entender o que dizem? Há alguma regra desconhecida sobre como abordar as pessoas? Alguma coisa que julgo banal os ofende? Eles se parecem comigo, reagem como meu? Suas sobrancelhas falam o mesmo idioma que as minhas? É claro que eu sabia que as diferenças não seriam muitas. No fundo, esperava no máximo uma variação da língua, um ou outro costume destoante (ambos, no meu caso, não faziam a menor diferença, eu não seria capaz de diferenciar os idiomas, estava propenso a ler qualquer gesto individual como um costume geral). Mesmo assim, a excitação me tomava - alguém dividiu o mundo assim e agora nós o percorremos pra saber se é verdade. O David seguia intrigado com as gaivotas.