Lua
Visitei um museu em Washington que exibia uma nave idêntica à Águia, aquele objeto voador com três patas de aranha e um corpo redondo que pousou na lua e depois levantou voo para se re-acoplar à Apolo 11 e devolver os dois astronautas que caminharam na lua. Toda essa engenharia avançada, esses equipamentos futuristas, capazes de magia, me assustaram. De perto, não eram muito diferentes em aparência de umas gambiarras para consertar um portão, ou umas alavancas soldadas para substituir uma peça num trator. O que mais me impressionou no monstro foi a fragilidade embrulhada em papel alumínio. Foi a primeira vez que questionei como eu via esse episódio da história mundial sequestrado pelos americanos. Ah, vá lá, eles têm o mérito de serem tão competitivos que arriscam tudo, levam a sério a bravura, tudo vira cinema, tudo pelo prazer da vitória. O prazer infantil da vitória - pegar alguém no fim da aula, bater em alguém, ser melhor que alguém, derrotar alguém, acabar com alguém, detonar alguém, fazer alguém beijar suas botas - quase tão infantil quanto o jeito que eu contava esta história antes da visita ao museu: três bravos astronautas tremeram - apesar de todo o treinamento para a "vida selvagem"- se despediram de suas famílias e entraram na Apollo 11 sabendo que poderiam não voltar. É o perigo de ser o primeiro. A equipe e a torcida fizeram o que era esperado, o foguete foi lançado. Daqui, minha imaginação pula direto para a visão da terra, pela janelinha da espaçonave, o assombro. Quase imediatamente, deve ter sido no primeiro dia, eles avistam a lua. É uma linha reta daqui até lá, não há obstáculos ou desvios, dá pra ver daqui. E pousam lá, como um milagre. Neil Armstrong desce e dá alguns passos. Eles precisam acender uma luz forte para filmar - o que dá a tudo uma aparência de ficção, de estúdio, o escuro no fundo certamente esconde a curva da lua e, se ele corresse, poderia dar a volta no satélite inteiro. Dono de tudo como um pequeno príncipe. De cabeça pra baixo e tudo. Aí preencho o que não consigo imaginar com as famosas fotos, a bandeira, a frase. E de repente os astronautas já estão atrás de uns microfones, vaidosos porque precisaram sair da terra para que os vissem aqui. Claro que a primeira olhada para a cópia da cápsula da Águia exposta no museu - os mesmos materiais, as mesmas proporções, a mesma tecnologia - destruiu todo esse devaneio de criança que a vida adulta não precisou alterar. Só ontem quis descobrir o truque do mágico, entender como tudo aconteceu. Vou começar por uma lista, pra me guiar nessa jornada: a sala de comando; a plateia; os três astronautas; a decolagem é a explosão de um edifício; a subida ao céu; os giros ao redor da terra, tomando galeio (não esquecer que, num desenho, o giro da nave sobre o mapa é uma onda); a queima para sair da órbita e encontrar a direção até a lua; depois do incêndio, a viagem tranquila (a nave se põe de pé, perde duas de suas partes mais importantes, é reduzida a um terço do seu tamanho, talvez menos, e gira, segue girando por alguma coisa a ver com a temperatura da nave, horas, talvez dias nesse giro, sete quilômetros por segundo, é difícil até de imaginar); a espera (os astronautas ficaram amigos, se divertiram, irritaram e toleraram uns aos outros); outra queima e um pequeno desvio quando se aproximam da lua (que agora eles vêem: é dourada e marrom, faz pensar em pedras e areia); então um despregamento (dois astronautas entram na Águia enquanto o terceiro fica girando na órbita da lua, aguardando os dois privilegiados pisarem na lua. Será que houve ressentimento?); o pouso (aquele monstrengo frágil, feito de lata fina, com pernas de inseto enroladas em papel alumínio e - isso é papelão? Não pode ser); a pegada (Neil Armstrong pisa na lua. Diz que é arenoso, mas compacto. Diz que parece o deserto americano. Vinte anos depois, Aldrin Buzz, o outro astronauta, que também desce da cápsula, confirma: magnificent desolation); a visita (a coleta de materiais - terra, pedra, algo que não sabem o que é, como num deserto os animais podem estar camuflados. Fazem vídeos, afundam uma bandeira no chão. Colonizadores dizem que é tudo pelo bem da humanidade, pela união dos povos, desde que sob a sua bandeira. Aqui não é diferente. Mas não venta, se esqueceram disso. A partir daí tudo vai parecer encenado, a luz, a bandeira suspensa. Parece porque é - entre o deslumbramento, o medo e a grandiosidade do que lhes passa, eles se ocupam com a atuação - a luz, a bandeira, o texto decorado. Eles próprios quase se esquecem de que todo o resto é verdade. Enquanto eles se maravilhavam e recolhiam terra e fincavam bandeiras, a nave maior e o terceiro astronauta ficaram circulando a lua à espera deles. Os dois retornarão à nave na hora combinada, quando o terceiro astronauta estiver outra vez sobre suas cabeças.); outra explosão para o retorno (dessa vez para levantar a cápsula do solo lunar e fazê-la girar. Agora entendo a fragilidade, a Águia tem que ser leve, tem que aguentar o fogo (lembrar de Héstia). Se os astronautas se deixaram levar por suas performances, aposto que o teatro acabou com o que veio a seguir: a cápsula, empurrada pelo incêndio, vai a cento e cinquenta metros por segundo, uma correria em direção à nave maior que também segue sua órbita, ansiosa pelo encontro, torcendo para que ninguém se atrase. As duas, em disparada, se chocam no meio do céu, pregando-se nos lugares certos, ninguém sabe como. Os dois são transferidos para onde está o terceiro e a Águia é abandonada. Não sei se caiu em solo lunar ou se ainda gira inútil ao redor da lua ou ainda se, vá saber, se despregou dessa órbita e segue solta, se chocando com outros lixos, causando uma interferência significativa -e ainda invisível - no funcionamento das coisas aqui na Terra.); a viagem de volta (dois dias, sem falar muito, atordoados por perceberem que não conseguem contar o que lhes aconteceu, eles ficam quietos, torcendo para a Terra aumentar um pouquinho a cada hora, confirmando que estão na direção certa, no caminho de volta para casa); a entrada na atmosfera (a nave pega fogo e os astronautas fogem do veículo em chamas. Então, um blackout - as pessoas na sala de comando aqui na terra, que vinham torcendo, controlando, calculando, já tinham se emocionado, cumprimentando-se com aquela alegria masculina, uma ofensa jogada no ar com alegria, um abraço violento e logo uma fuga do abraço para secar as lágrimas antes que caiam, essa sala de homens atentos agora está em pânico. Tudo estava previsto, o incêndio, a fuga, também o pânico. Também sabiam que perderiam contato com os astronautas, a nave estava em chamas, pelo amor de deus. Deus, no fim só isso restava); por fim, navios em alto-mar vigiam o céu (esperam algo cair. E cai. Um pedacinho minúsculo da Apolo 11, de paraquedas, cai no oceano. E o navio os resgata, dá-lhes um banho e os apresenta aos jornalistas).