o nascimento de Letícia
A gravidez cutucou cada uma das feridas e, quando Letícia nasceu, ela se sentia em carne viva, pustulenta. A chegada da bebê a obrigava a cobrir suas feridas, o que piorava tudo. Assim que as visitas iam embora, era como se tivesse que arrancar todos os esparadrapos e gazes que vinham mantendo seu sorriso e sua ternura no lugar esperado. E as bandagens grudavam na carne, cristalizavam o pus e tinham que ser desgrudadas dela, arrancadas lentamente para que a menor quantidade possível dela mesma não fosse arrancada junto. Mas não era isso que a deixava paralisada. Encarando a bebê num cesto de natal ao lado de sua cama (aquela luz do hospital a deixava tão feia. Com quem ela se parecia?) O que a deixava em choque era o fato de não ter acontecido o que lhe diziam que aconteceria. Tentava encontrar os defeitos na imagem e corrigi-los. Aquela luz de hospital a deixava feia. Talvez na penumbra do quartinho preparado ela consiga enxergar a beleza que as outras mães dizem ver. Faltava um acolchoado com ursos, bandeiras e pipas ao redor daquele cesto. Mas não era isso. O cenário estava todo montado, o roteiro estava sendo seguido. Ali estava ela com um corte dolorido na banha da barriga. Ali estava a menina no macacãozinho que ela escolheu. E o macacãozinho serviu. Qual era o problema então? Ela não sentia nada. Estava atuando, mas era só a carcaça de uma mãe, não sentia nada, estava vazia. Pra falar a verdade, a menina lhe causava até uma repulsa, bem leve, devia ter a ver com o cheiro do quarto. Ou do iodo que passaram nos olhos dela. Ela tinha o rosto bem escuro, vermelho, com manchas alaranjadas. Como se ela tivesse chorado uma coisa viscosa e amarela. Como se ela nem fosse humana, era isso o que ela conseguia criar? Não queria pensar nessas coisas. O queixo era seu. O nariz também. Nem um dos dois eram bonitos. Aliás, era isso o que deixava a menina feia: o queixo e o nariz. Aí tentava se convencer de que esse sentimento, como todos os outros, ia passar. E se ela tivesse sorte, no lugar desse vazio rançoso podia até surgir aquele amor que lhe venderam, aquela força animal, aquele desejo de lamber o filhote e lhe oferecer os peitos. E o coração inchando sem parar com um balão que só conseguimos deixar de assoprar quando explode. Em vez disso, as feridas, aquele vazio. Ela estava certa. Passou. Em seu lugar, veio um sentimento inesperado. Sem saber como isso aconteceu, ela passou a tratar a menina como uma parte de seu próprio corpo. Não era o que esperava, mas os resultados eram os mesmos. Qualquer um que encostasse na menina era como se esfregasse as mãos em seu corpo. O que diziam sobre a menina sempre lhe atordoava. Era como se estivessem falando dela pelas costas. Mas ela estava ali. Quando estava com raiva de si mesma, naturalmente sentia raiva da menina. Aí estava o perigo. Poderia ser uma coisa boa ela sentir essa conexão profunda com a filha, se ela não se tratasse com tanto desprezo. Se ela não se culpasse, reprimisse, martirizasse, depreciasse, diminuísse. Tudo isso agora ia sentir pela menina. E era exatamente por isso, por saber disso, que ela às vezes sentia uma vontade louca de proteger a filha dela mesma. E sua fantasia de proteção era abandonar a menina no meio do pasto, esquecê-la na banheira, esmagá-la por acidente, deixá-la no berço, trancar a porta e nunca mais voltar. Essas imagens a invadiam nas horas mais inapropriadas, quando tudo parecia resolvido temporariamente, todas as tarefas cumpridas à custa de sua exaustão. Onde encostava cochilava. Achou mais prático não deitar mais pra dormir. Como ela adormecia com a menina no peito, passava a noite toda na poltrona de amamentação (que era uma das poltronas soltas do conjunto de couro marrom desbotado da sala que eles arrastaram para o quarto). A menina acordava, se fartava, arrotava e ela só precisava se ajeitar, coisa que nem precisava realmente acordar pra fazer. Às noites, o esquema funcionava bem. Mas tinha um custo: as manhãs. Quando acordava, ela se sentia culpada, tinha fracassado no nobre ofício da maternidade e se prometia que as coisas iam mudar. Essa preguiçosa vagabunda vai ser uma mãe de verdade. Essa proposição sempre esbarrava na falta de preparação que a obrigava a adiar os planos.