Micélio

sobre a minha mãe

Minha mãe, aos oito anos, já era empregada doméstica. Minha mãe, aos oito anos, servia, lavava as privadas e os pratos, capinava o quintal, corria atrás das galinhas e as degolava com uma faca do tamanho de um braço. Chegava às seis da manhã, ia embora depois da janta, fosse que hora fosse. Não recebia salário por isso, ganhava refeições e restos de roupa. Às vezes, a dona Zuleica a corrigia com doçura, às vezes praguejava contra ela. Uma vez chegou a lhe dar uns tapas na cabeça, no ombro, na orelha - por conta de uma travessa lascada. Minha mãe entendeu. Também dava valor àquelas coisas e sabia que às vezes uma travessa é tudo o que se pode ter. Ela queria ter suas próprias travessas do coração, como a Dona Zuleica. A ordem tinha sido: depois de lavar a louça da janta, ela devia passar numa casa lá perto da saída da cidade (um desvio que ia custar uns dez minutos, o pior era a ladeira na volta). Dona Carmem precisava de uma lavadeira e a Dona Zuleica indicou a mãe dela, minha avó. "A Carmem, a tua mãe, todo mundo avisado", menos minha mãe, que obedeceu. Andou rápido, chegou e a puseram pra dentro. Ficou esperando na cozinha enquanto a empregada, uma tal de Sueli, e a patroa cacarejavam lá dentro. Minha mãe deve ter ficado olhando a pia da cozinha, deve ter comparado as travessas com as da da Dona Zuleica - que de repente começou a desprezar, tão menos valiosas, mais leves porque piores, sem frisos dourados nas bordas ou fingindo que as flores pintadas tinham mais que duas dimensões. Quando a empregada, Sueli, voltou, a patroa veio junto. Era uma menina a dona Carmem, nem dava vontade de chamá-la de dona de alguma coisa. "Ela não vai aguentar", soltou assim que viu a menina no meio da cozinha. Minha mãe contou que pensou - ela não me conhece. Eu acredito porque sou só uns anos mais velho do que ela era nessa época e muitas vezes penso a mesma coisa - ela não me conhece. Disso, minha mãe sempre pula pra parte em que as duas estão no carro da Dona Carmem. Ela acha um despropósito uma menininha daquelas carregar uma trouxa pesada daquelas sozinha, se ela tem um carro na garagem e tempo. E bondade, é o que minha mãe achava que ela estava pensando. Minha mãe sentia nela uma vontade de ser boa, de fazer uma caridade para sua própria recompensa. E minha mãe era uma menina pobre, servindo àquela hora aos seus caprichos e de todos os que têm dinheiro, aquela menina podia lhe dar uma recompensa, um alívio, um sono. E minha mãe estava feliz em fazê-la acreditar no que ela quisesse. No carro, minha mãe superou as expectativas. Não só era pobre, mas era inteligente. Gostava de ler, de assistir às novelas e de, dona Carmem estava chocada, escrever versos. Dona Carmem não podia deixar um talento ser soterrado por trouxas de roupa suja. Iria salvar aquela menina. Tinha que. Era sua obrigação. Desceu do carro, não carregou a trouxa mas gritou pros meninos, meus tios, que tirassem a roupa do porta-malas. Meus tios, por costume e sem questionar, aceitaram as ordens da desconhecida. Minha avó deve ter pensado que minha mãe tinha feito rebeldia, desde bem nova era esquentada e violenta, quando viu a dona Carmem com as mãos nos ombros da minha mãe. Não soube dizer se era um abraço ou uma condução de alguém que precisa ser contido. Era um abraço. Uma oferta de ajuda não-requisitada. Ou será que minha mãe pediu por isso ao contar a história de seus dias como empregada e como era sensível demais a ponto de saber o valor sentimental de uma travessa e também inteligente demais para ser tratada como bicho, como sua própria mãe foi tratada? Gasto muito tempo tentando imaginar o que minha avó sentiu ao ouvir isso. Se agradeceu, pelo menos uma estava apadrinhada. Já era alguém com quem contar numa emergência pequena. (Nas emergências grandes, não se conta com ninguém a não ser com os de seu sangue. Se tiver sorte.) Ou se teve vontade de bater na minha mãe por fazê-la passar por aquela humilhação na porta de casa. A casa da minha avó, para dona Carmem, deve ter sido um espanto.